Dança das cadeiras de técnicos não terá fim enquanto não houver regra contra ela

Técnicos concordam que cenário atual permite desrespeito de clubes e dos próprios treinadores a contratos assinados

Dos 20 times da Série A do Campeonato Brasileiro, só cinco não mudaram de técnico desde janeiro. Durante a edição de 2014 houve 17 mudanças. Vitória, Figueirense e Flamengo mudaram de técnico duas vezes. O número não chega a surpreender. Todo ano é assim. Clubes não têm paciência para esperar por resultados e desrespeitando contratos demitem seus treinadores sem pensar. E assim seguirá sendo. 

Alguns técnicos ouvidos pelo iG avaliaram que só uma regra clara que proíba, por exemplo, que técnicos que já trabalharam numa equipe em um campeonato trabalhem em outra na mesma edição do torneio vai diminuir essa "dança das cadeiras". Em 2014, Ney Franco treinou o Vitória e o Flamengo antes da Copa do Mundo. Agora está de volta ao time baiano por conta da demissão do clube carioca, onde não venceu em sete jogos.

"Eu saí daqui (Vitória) muito bem resolvido. Não volto com a responsabilidade de ter que provar alguma coisa", disse Franco na "volta dos que não foram".  O Vitória apostou em Jorginho "Cantinflas", mas a insistência em se manter na zona de rebaixamento fez o clube de Salvador recorrer àquele que desprezara a equipe para acertar com o Flamengo. 

Para Tite, treinador que dirigiu o Corinthians por três anos e dois meses, e que desde janeiro se dedica a estudos e viagens, essa regra diminuiria o problema. "Concordo definitivamente neste item que regulamenta o fato de poder trabalhar apenas num clube da mesma divisão, no mesmo torneio e no mesmo ano", disse o treinador por email ao iG.

Emerson Leão, outro treinador que está fora do mercado "por opção" avalia que é fácil para os clubes insistirem nas demissões sem regras para isso. "Eu acho que isso que diminuiria os número de demitidos. Isso seria uma coisa óbvia. Isso nada mais é que um desrespeito. Mas há muito jogo de interesses entre técnicos, empresários e dirigentes. Eu não me envolvo nessas coisas", disse o técnico que teve como último trabalho o São Caetano em 2012 depois de uma passagem pelo São Paulo. 

Casos como de Dorival Júnior, que só em 2013 passou por Flamengo, Vasco e Fluminense, são cada vez mais prováveis. Mas é possível evitar que isso se repita. Na Itália, por exemplo, técnicos demitidos durante um torneio nacional não podem assumir outra agremiação no mesmo torneio.

Virgílio Elísio, diretor de competições da CBF, foi procurado pela reportagem, mas ignorou as perguntas sobre o assunto. A entidade poderia implantar alguma regra como a que proíbe que jogadores que atuaram por uma equipe por mais de sete ou mais jogos troque time no mesmo campeonato. 

A preocupação de Tite e Leão em relação a uma possível mudança está ligada à possibilidade de os clubes passarem a buscar no exterior os seus técnicos. "O Palmeiras foi atrás do argentino Gareca e não deu muito certo. Vai deixar que legado? Até agora nenhum", disse Leão. 

Para Tite, a regra só seria eficiente se a LRFE (Lei de Responsabilidade Fiscal no Esporte), que tramita no Congresso Nacional, for aprovada. Nela, os clubes são obrigados a honrar seus compromissos. "Será que o clube em não tendo a LRFE regulamentada com órgão fiscalizador independente não continuaria confortável em demitir um técnico, não pagar seus direitos?", pergunta. "O clube poderia contratar algum técnico estrangeiro ou eventualmente um técnico que não estivesse empregado no ano correspondente".

Mas há quem é contra a medida. Toninho Cecílio, ex-gerente de futebol do Palmeiras e técnico atualmente sem emprego, diz que a medida não resolveria. "Uma diretoria deve manter um treinador se acredita no trabalho dele e não porque terá dificuldade em contratar outro profissional. Para que se tenha um número menor de trocas de treinadores deve-se formar melhores profissionais em dois setores; na gestão do departamento de futebol e dos próprios treinadores brasileiros", avaliou. 

Ele também é contra a regra que existe na Itália. "Respeito obtém-se com educação e melhor formação dos profissionais envolvidos. O futebol brasileiro precisa investir em formação, disponibilizar ferramentas e conteúdo para que os clubes consigam formar dirigentes e treinadores em uma velocidade maior".

 

fonte:ig

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